Sobre “A reprodutibilidade técnica da educação on-line”

Destaque, Educação a distância

Atualizado em 21/01/2021


Post em discussão: A reprodutibilidade técnica da educação on-line

Caro Eri,

Obrigado pela citação no Facebook!

Sim, promovo um modelo de EAD que se poderia chamar de artesanal, a docência online independente (DO-In). Quem quiser saber sobre isso pode visitar os links-artigos desse post:

http://educacaoproxima.wordpress.com/2011/07/13/debate-sobre-docencia-online-independente-na-jovaed/

Não afirmo, no entanto, que esse modelo seja melhor que outros. Oferece uma série de vantagens, mas não se aplica a todos os casos.

Precisamos considerar que por meio da DO-In também é possível criar cursos ´massificados de prateleira´ e ainda MOOCs. Me refiro tanto aos MOOCs predominantemente instrucionais quanto àqueles com ênfase sócio-construtivista / conectivista. Modelos artesanais e modelos massificados não são mais mutuamente excludentes, graças à tecnologia. Se pensarmos em livros isso fica bem claro. Até pouco tempo publicar e comercializar uma obra era algo difícil. Só quem fosse aceito por uma editora. Hoje temos aí tantos sites onde qualquer publica o que quiser, podendo receber pagamentos por isso. E as obras ficam em prateleiras virtuais semelhantes às das grandes editoras. Obras produzidas de modo artesanal / amador alcançam então o mesmo potencial de massificação que antes pertencia apenas a editoras.

Mas volto à questão da massificação de cursos industriais, feitos por instituições mesmo.

Vejo essa questão de modo diferente. Acho fabuloso que vendam cursos em prateleiras de supermercado, do mesmo modo como ocorre com livros, vídeos e CDs.

Alguém diria que é algo ruim a venda de livros de modo massificado? Se estão à venda em supermercados é por que existe demanda. Significa que o público de leitores cresceu. Isso é algo a ser comemorado.

Também penso que devemos comemorar que vendam cursos autoinstrucionais. Significa que há um mercado crescente de gente que quer aprender, mudar, alcançar novas competências em áreas variadas.

Alguém poderia dizer que cursos autoinstrucionais não são bons ou são piores que cursos mediados por docentes. Eu não acredito nisso. Depende do caso. Cursos em turmas pequenas, bem mediados pelos próprios autores especialistas, com abordagens práticas, são inevitavelmente muito mais caros.

Veja que o mesmo vale para os livros. Sim, livros substituem parcialmente seus autores, que não podem estar presentes para em todos e a qualquer momento. Oferecem comunicação em grande escala, unidirecional, através do tempo e espaço. São soluções culturais massificadas e autoinstrucionais. Ninguém afirma, contudo, que sua venda em muitos locais consiste em ação predatória das editoras. Pelo contrário, a popularização do livro é algo importante, objeto de políticas de governo, ações de ONGs, de sua indústria e da sociedade de modo geral.

E é uma pena que ainda tenhamos um mercado relativamente pequeno de leitores. Com a massificação os custos de cada livro poderiam ser menores e mais gente teria acesso a produtos culturais. Felizmente agora, com os ebooks, os preços podem cair em função da redução dos custos de distribuição e da concorrência proveniente da ampliação do número de títulos, inclusive de autores independentes. Caem ainda os preços pela concorrência com empresas internacionais (como Amazon), quando até pouco tempo o alcance das editoras era apenas regional.

Se aceitamos a massificação da produção e distribuição de livros, e se admitimos que editoras lucrem com eles, por que não aceitar o mesmo de cursos / materiais didáticos digitais e autoinstrucionais? Ambos servem ao enriquecimento cultural / aprendizagem de quem os adquire…

Produtos massificados atendem à necessidade de ampla disseminação por valores reduzidos. Textos escritos à mão, música ao vivo em pequenos bares, teatro, palestras ao vivo, e turmas com poucos alunos (presenciais ou online) não são economicamente viáveis para a maioria das pessoas que necessitam de cultura e educação (ainda mais em uma sociedade onde as demandas de formação são crescentes).

Precisamos então de livros editados e distribuídos em massa, shows em grandes estádios, música e vídeos distribuídos em CDs e online, cinema, palestras em vídeo online e sob demanda, cursos online para grandes turmas, MOOCs, e também cursos autoinstrucionais de prateleira (online e no supermercado).

Os modelos de pequena escala e de grande escala não são mutuamente excludentes. Servem a propósitos, momentos e públicos diferentes…

Alguém poderia dizer que os cursos de prateleira são ruins, mas essa não é uma afirmação viável. Seria como dizer que livros ou CDs vendidos em supermercado são ruins. Ora, não é o modo de distribuição que determina a qualidade de um produto, e sim sua adequação a certo público e suas necessidades.

Concordo com todos que disserem que o mercado da EAD / tecnologia educacional precisa amadurecer. Vejo certamente práticas criticáveis como materiais infantilizados, que menosprezam a inteligência dos aprendizes-usuários, que apelam para firulas tecnológicas, e valorizam pouco conteúdos bem pesquisados e redigidos. E concordo que tem muitas empresas cuja ganância obscurece o cuidado em oferecer algo de qualidade. Logicamente isso só pode persistir enquanto os consumidores ainda não amadurecem. Costumo dizer que as pessoas sabem avaliar muito melhor comida em restaurantes do que os cursos em que se inscrevem. Isso é de se esperar uma vez que desde cedo nos acostumamos com tantas disciplinas mal ofertadas na escola… Faltam às pessoas referenciais de qualidade que derivem de boas experiências de aprendizagem.

Concordo ainda que cobra-se caro por muitos desses cursos autoinstrucionais. Com o mesmo dinheiro muitas vezes é possível comprar livros impressos ou digitais de conteúdo melhor, em profundidade, confiabilidade, e correção linguística, fruto da indústria editorial, que possui critérios de qualidade mais rigorosos e toda uma força de profissionais especializados, com séculos de amadurecimento. Na área de EAD / tecnologia educacional temos apenas poucas décadas de experiência, profissionais de áreas variadas que procuram se adaptar a projetos que são novos para eles, e vivem diante de tecnologias que se multiplicam. Cada novo recurso ou abordagem enseja uma onda de evangelistas e empresas que lucram com sua promoção. Em tempo fica claro o que funciona e o que não funciona bem para determinadas finalidades… É muito difícil fazer generalizações sobre o que são ou não soluções de qualidade. Defendo que isso sempre depende de avaliações específicas.

Todos esses problemas não invalidam nem reduzem, no entanto, o valor potencial que produtos autoinstrucionais têm. A existência de livros específicos de má qualidade, ou mesmo editoras picaretas, não invalida a importância do livro como recurso cultural / educacional. Do mesmo modo, a existência de editoras multimídia / equipes de EAD cujos produtos sejam criticáveis, não invalida o potencial dos cursos autoinstrucionais.

Cabe observarmos ainda, que se admitimos que livros são bons, os materiais didáticos digitais autoinstrucionais podem ser ainda melhores uma vez que fazem tudo que livros fazem e muito mais, ainda que não ofereçam interação com docentes. Vale ainda lembrar que ainda que determinado produto seja concebido para uso individual, a experiência dos usuários é algo contínuo. Um livro/curso de prateleira que seja interessante será provavelmente objeto de conversas com colegas ao vivo e online. Pode ainda servir como componente de cursos formais com mediação docente…

Enfim, não vejo o fenômeno de disseminação dos cursos de prateleira (agora as prateleiras são físicas) 😉 como algo ruim, pelo contrário, é muito positivo. Quanto à qualidade de produtos específicos só analisando caso a caso…

Um grande abraço, Eri!

Deixe seu comentário
Régis Tractenberg
Edição e autoria

Régis Tractenberg é diretor e professor da Livre Docência Tecnologia Educacional.

Leia também...

  • Muito bom texto, Régis! Ainda existe bastante preconceito quanto aos cursos à distância, o que pode ser entendido em alguns casos, mas é preciso entender que estamos em um processo contínuo de popularização e amadurecimento do conhecimento. Se no passado o ensino era muito melhor (e não há como negar), ele só atendia às classes mais abastadas. poucos eram os casos de universitários que vinham de classes mais baixas. Nesse momento, o desafio é levar a possibilidade de educação a todos mesmo que pecando muito na qualidade. O próximo desafio é qualificar essas ferramentas de massa. Parabéns!

  • Salve Régis,

    De fato, muito precisa suas ponderações!

    Venho vivido esse processo no contexto da área pública, é muito interessantes como as questões que você coloca se convergem no contexto da saúde.

    Muito bom vou usar seu texto como material de referência para alguns debates que tenho conduzido no meu trabalho aqui no Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids.

    Abraços
    Dreyf Gonçalves

    • Olá Dreyf!

      Obrigado. É uma satisfação saber que o texto será útil!

      Um grande abraço!
      Régis

  • {"email":"Email address invalid","url":"Website address invalid","required":"Required field missing"}
    >