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Esse post faz parte do primeiro capítulo do livro Docência On-line Independente: novos horizontes profissionais na Educação. Clique no botão a seguir para receber o primeiro capítulo completo.

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Em dezembro de 2015, fizemos um levantamento qualitativo sobre as características dos professores on-line independentes em atividade no Brasil. Coletamos os dados preservando o anonimato dos respondentes, por meio de questionário on-line que divulgamos nos principais grupos brasileiros sobre EaD no Facebook e entre os ex-alunos dos cursos da Livre Docência Tecnologia Educacional. Também convidamos professores que têm canais no YouTube e outros que ofertam cursos pelo sistema Hotmart.com.br.

Buscamos identificar seu perfil, sua procedência geográfica, titulação, os temas que lecionam, os tipos de cursos que oferecem, a quantidade de alunos que atendem, os recursos tecnológicos e pedagógicos que utilizam, suas motivações e as vantagens e desafios que percebem em sua forma de trabalho. Indagamos ainda sobre sua dedicação e remuneração na docência on-line independente, que competências consideram fundamentais em sua atividade e quais as suas recomendações para professores iniciantes na DO-In. A seguir, sintetizamos os principais dados desse levantamento e apresentamos algumas considerações.

Identificamos 22 profissionais que se enquadram no perfil de docentes on-line independentes (13 mulheres e 9 homens). Dentre estes, 19 têm títulos de pós-graduação e 13, vínculos como professores contratados por instituições de ensino, além das atividades com a oferta dos próprios cursos independentes.

Suas idades estão distribuídas nas seguintes faixas: de 25 a 30 anos (2 respondentes), de 31 a 40 (6), de 41 a 50 (7), de 51 a 60 (5), de 61 a 70 (1) e de 70 a 80 (1), sendo a idade média de todos na amostra 45 anos.

Vivem em cidades dos seguintes estados brasileiros: Rio de Janeiro (6), Distrito Federal (3), Minas Gerais (3), São Paulo (3), Paraná (2), Santa Catarina (2), Paraíba (1), Rio Grande do Norte (1) e Rio Grande do Sul (1).

Sua experiência com a DO-In é variada. Dentre os professores pesquisados, 1 oferece cursos independentes há menos de 1 ano; 7 exercem tal atividade entre 1 e 3 anos; 4 trabalham desse modo entre 3 e 5 anos; 6, entre 5 e 7 anos; e 4 ofertam os próprios cursos há mais de 7 anos.

A docência on-line independente representa uma atividade de tempo parcial para a maioria dos respondentes: 3 dedicam menos de 20% de seu tempo de trabalho à DO-In; 9, entre 20 e 40%; 3, de 40 a 60%; 1, entre 60 e 80%; e 6, 80% ou mais.

Dentre os professores pesquisados, 8 são profissionais autônomos, 3 exercem suas atividades como microempreendedores individuais (MEI) e 11 são sócios de empresas mediante as quais oferecem seus cursos.

Os docentes da amostra lecionam nas seguintes áreas: comportamento humano e liderança, direito (preparatório para concursos), educação, educação alimentar, gestão, idiomas, marketing digital, preparação para concursos militares, psicologia e tecnologia, redação e língua portuguesa, recursos humanos, tecnologia educacional e utilização do ambiente virtual de aprendizagem Moodle.

Quanto ao número de cursos diferentes que oferecem, 11 professores têm de 1 a 2 cursos independentes; 8 deles oferecem de 3 a 5 cursos; 2 docentes ofereceram mais de 10 cursos diferentes; e 1 oferta dezenas de vídeos educacionais no YouTube.

A maioria de seus cursos tem carga horária estimada entre 20 e 60 horas (15 professores). 5 docentes têm cursos que exigem entre 10 e 20 horas; e 2 indicam que seus cursos exigem entre 60 e 80 horas de dedicação.

Dentre os professores pesquisados, há grande variação na forma de agrupamento que utilizam com seus aprendizes: 4 atendem individualmente; 6 têm grupos com até 20 participantes; 7 atendem turmas de 21 a 50 alunos; 1 professor atende a 100 estudantes por turma; 1 atende a turmas de 100 a 600 participantes; e três declararam que não formam turmas, pois oferecem vídeos on-line autoinstrucionais.

Também há expressiva variação na quantidade de aprendizes que atenderam nos últimos 12 meses: 7 professores tiveram menos de 60 alunos; 7 atenderam entre 100 e 170; 5 entre 350 e 600; 1 atendeu a mil alunos; 1 mais de 10 mil; e 1 atendeu a mais de 100 mil – estes três últimos são aqueles que oferecem vídeos sob demanda.

Quanto aos valores de seus cursos, 4 cobram entre R$15 e R$100; 11, de R$100 a R$360; e 5, entre R$400 e R$500. Uma professora é remunerada pelas instituições que oferecem seus cursos sem custo para os alunos; e uma educadora oferece seus vídeos gratuitamente.

O público atendido pelos docentes compreende estudantes de todos os níveis, com predominância daqueles no ensino superior e profissionais formados.

12 professores de nossa amostra utilizam o Moodle como AVA; 8, grupos no Facebook para interagir com seus alunos; 8 empregam os próprios sites e 5 usam canais no YouTube. Obs.: Este item permitiu que os respondentes indicassem mais de uma opção, por isso o número de recursos citados ultrapassa 22, que é a quantidade de professores da amostra. O mesmo acontece nas questões seguintes.

Dentre os principais recursos de comunicação que utilizam, em primeiro lugar vem o e-mail, com 16 docentes; em seguida, estão os fóruns de discussão, com 12 professores usuários. Juntos, em terceiro lugar, temos os grupos no Facebook e videoconferências em grupo, adotados por 10 professores cada. Em quinto lugar, estão as interfaces de chat (conversa por texto em tempo real), citadas por 9. Foi indicado ainda por 7 docentes o uso de listas de discussão por e-mail e videoconferências individuais (Skype).

Os materiais didáticos que utilizam incluem textos digitais (HTML, PDF), adotados por 16 docentes; slides e vídeos com aulas próprias gravadas, citados cada um por 14 professores; e vídeos com produções de terceiros, utilizados por 11. Também foi citado o uso de textos impressos por 9 docentes; e áudios, tutoriais tela a tela, simulações e wikis, com indicação de 7 professores cada.

Diferentes metodologias são aplicadas pelos professores de nossa amostra de acordo com os tipos de cursos que oferecem. Sintetizamos as principais a seguir:

  • Leituras;
  • Discussões por meio de fóruns e chats;
  • Formação de comunidades de aprendizagem colaborativa;
  • Indicações de fontes externas com recursos de aprendizagem;
  • Atividades individuais e em grupos;
  • Oficinas práticas on-line em grupos;
  • Suporte docente com relação às atividades de aprendizagem e dúvidas dos alunos;
  • Tutoriais digitais com orientações passo a passo;
  • Desenvolvimento de projetos com orientação docente;
  • Aulas ao vivo por videoconferência;
  • Práticas de conversação no ambiente virtual de aprendizagem em interação com professor nativo no idioma em estudo;
  • Acompanhamento próximo e individual (coaching);
  • Atendimentos individuais conforme a necessidade dos estudantes, que podem solicitar aulas sobre dúvidas específicas, correção ortográfica de uma redação e/ou correção completa com orientação e aquisição de e-books com unidades de aprendizagem.
  • Criação de cursos sob medida segundo as solicitações de instituições contratantes;
  • Vídeos gratuitos pelo YouTube, com informação impactante e ironia;
  • Vídeos com acesso pago.

 

Os docentes independentes da amostra divulgam seus cursos por meio de grupos e páginas no Facebook (20 indicações), e-mail marketing (17), Facebook Adwords e Google Adwords (9 indicações cada). Utilizam ainda posts em blogs (8), webinários e vídeos (6 indicações cada).

Com relação às competências mais importantes para se oferecer cursos on-line de modo independente, os professores mencionaram, em primeiro lugar, o conhecimento técnico na área a lecionar (com 16 indicações), as capacidades de interação com alunos e de planejamento educacional (12 indicações cada item), o uso de tecnologias e o empreendedorismo (11 indicações cada). Foram citadas também as competências de criatividade e disciplina (8 indicações cada), motivação (7), marketing digital (6), inovação (5), produção textual e produção de vídeos (4 indicações cada).

O retorno financeiro sobre os cursos independentes representa menos de 20% da renda para 7 docentes da amostra; de 20% a 40% para 9 professores; de 40% a 60% para 1 profissional; de 60% a 80% para 1 docente; e mais de 80% da renda para 4 professores.

6 respondentes consideram sua remuneração pela hora de trabalho na DO-In inferior ao valor de sua hora de trabalho em instituições de ensino; 5 acham-na equivalente e 11 consideram-na superior.

Esses resultados corroboram a percepção de que a docência independente pode ser uma atividade interessante em termos financeiros.

Essa não foi, contudo, a vantagem mais importante indicada. Em primeiro lugar, dentre os benefícios da DO-In, está a flexibilidade de tempo e local de trabalho, indicada por todos os 22 integrantes da amostra. Em segundo lugar, temos o sentido de realização pessoal, com 20 indicações. E, em terceiro lugar, a liberdade pedagógica na criação dos cursos, com 19 indicações. Em seguida, em quarto lugar, está a liberdade de pesquisa, com 13 indicações. O retorno financeiro vem somente em quinto lugar, indicado por 10 professores.

As respostas abertas dos professores que participaram da pesquisa refletem esses resultados. Uma síntese dos motivos que indicam para o início de suas atividades com cursos independentes inclui:

  • Flexibilidade quanto ao local de trabalho;
  • Flexibilidade de tempo;
  • Liberdade pedagógica para criar conteúdos e atividades;
  • Aplicar valores educacionais em que se acredita;
  • Autonomia sobre decisões e métodos de trabalho;
  • Realizar-se de modo pessoal e profissional;
  • Contribuir com a sociedade;
  • Liberdade de empreender com um negócio próprio;
  • Aumentar rendimentos;
  • Conseguir trabalho com remuneração condizente com a formação alcançada;
  • Obter maior retorno financeiro proporcionalmente à carga horária trabalhada;
  • Aplicar conhecimentos em design instrucional;
  • Atender alunos de modo individual em suas necessidades, nos horários e locais mais adequados para eles;
  • Suprir a demanda de clientes, inicialmente atendidos por cursos presenciais e, depois, por cursos on-line;
  • Manter-se em atividade profissional após a aposentadoria;
  • Evitar viagens, necessárias quando se oferece cursos presenciais;
  • Contornar a extinção do mercado de trabalho anterior;
  • Divulgar outro produto, foco do negócio principal;
  • A transformação de um hobby em um negócio.

 

Dentre as desvantagens, foram citadas a dificuldade de formar turmas com um número mínimo de alunos (indicada por 9 docentes); a desconfiança do mercado e a concorrência com instituições de ensino (citadas cada uma por 7 professores). Indicaram não haver desvantagens na docência on-line independente 6 profissionais.

Finalmente, segue uma síntese das recomendações feitas pelos professores de nossa amostra para todos que pretendem iniciar atividades na docência on-line independente:

  • Acredite, tenha dedicação, determinação, persistência, paciência, organização e foco.
  • Trabalhe com temas de que goste e que exijam formação continuada do público escolhido.
  • Goste de compartilhar conhecimentos e tenha empatia por seus alunos;
  • Aprecie a educação a distância.
  • Seja você mesmo e procure um público específico.
  • Saiba delegar e busque soluções profissionais. O barato ou grátis pode sair caro quando fazemos tudo por conta própria, sem contratar serviços profissionais como os de e-mail marketing e SEO, etc.
  • Amplie seus contatos profissionais (networking).
  • Planeje e tenha clareza de suas ações para levar adiante a DO-In. Tenha um bom modelo de negócio e faça um bom plano de negócio. Pesquise o mercado.
  • Faça um bom planejamento pedagógico, considerando seu público-alvo e a dedicação que seu público de aprendizes pode ter.
  • Desenvolva competências que possibilitem levar seu projeto adiante. Isso inclui seu preparo emocional/atitudinal.
  • Busque sócios e parceiros que complementem suas competências.
  • Aprenda como divulgar seus serviços. Estude e aplique ações de marketing
  • Invista em sua formação. Estude empreendedorismo, design instrucional, docência on-line, TI, marketing digital, produção textual e produção de vídeos.
  • Capriche, crie um curso realmente bom e você aparecerá para o mundo. Não tenha pressa de produzir algo de qualquer jeito.
  • Tenha cuidado com modismos tecnológicos e pedagógicos.
  • É preciso dedicar o tempo necessário ao seu empreendimento. Sem isso, mesmo com toda competência, seu projeto será prejudicado.
  • Não largue tudo para se dedicar à docência on-line. Mantenha seu emprego fixo pela garantia de remuneração e pelo contato com outros modelos de negócio.

 

Cinco anos se passaram desde nosso levantamento anterior sobre o perfil dos professores on-line independentes no Brasil (TRACTENBERG; TRACTENBERG; KURTZ, 2010). Em linhas gerais, os docentes desta nova amostra de 2015 apresentaram perfis semelhantes aos daqueles que participaram da pesquisa em 2010. Podemos destacar, contudo, as seguintes tendências e algumas de nossas observações sobre o mercado.

Houve ampliação e diversificação quanto aos tipos de cursos oferecidos. Se antes tínhamos principalmente cursos on-line em formatos “acadêmicos”, com turmas de poucas dezenas de alunos, hoje está disseminada a oferta de cursos autoinstrucionais sem turmas, que fazem uso principalmente de vídeos sob demanda. Esse formato, antes adotado apenas por empresas especializadas em cursos on-line, hoje está sendo usado por professores independentes e parece trazer expressivo retorno financeiro a estes em função dos ganhos em escala quando seus cursos alcançam boa divulgação.

A expansão quanto ao uso de vídeos sob demanda, em plataformas pagas e gratuitas (YouTube), ampliou o alcance desses profissionais independentes, que agora conseguem atingir públicos com milhares de aprendizes.

O Facebook se apresenta como importante plataforma tanto para a divulgação do trabalho de docentes independentes e interação com seu público potencial quanto para a organização de turmas e comunidades de aprendizagem.

Há um movimento de profissionalização das iniciativas docentes independentes expresso pela oferta e busca de cursos de empreendedorismo, marketing digital, produtividade no trabalho, produção de vídeos, dentre outros.

(…)

 

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Régis Tractenberg é diretor e professor da Livre Docência Tecnologia Educacional.

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