O Design Instrucional em Cosmos de Carl Sagan

Design Instrucional, Destaque

Atualizado em 20/09/2020


Cosmos é uma série em vídeo com 12 episódios cujo roteiro é de autoria do astrônomo Carl Sagan, conhecido pelo seu trabalho de divulgação da ciência para o público geral em uma época em que isso ainda era pouco comum.

Com frequência, recomendo a colegas que assistam Cosmos pois traz exemplos magníficos de design instrucional.  Destaco a seguir alguns dos recursos didáticos e características de estilo que utiliza:

Exposição por aula peripatética – Sagan caminha por diferentes localidades enquanto fala aos espectadores como se estivesse dando uma aula. Mostra cidades como Alexandria e Nova Iorque, o arranjo de radiotelescópios no Deserto do Novo México, laboratórios variados e cenários que ilustram galáxias e planetas.

Nave imaginária

Nave espacial imaginária – que permite Sagan e os expectadores viajarem juntos pelo universo: “Somos um modo do cosmos conhecer a si mesmo (…) vamos explorar o cosmos em uma nave da imaginação, sem limites de velocidade ou tamanho e desenhada pela música da harmonia cósmica. Ela pode nos levar onde quisermos no tempo e no espaço. Perfeita como um floco de neve, orgânica como uma semente de dente de leão, ela nos levará a um mundo de sonhos e de fatos.”

Reconstituições de época – com personalidades históricas no campo da ciência como Kepler, Copérnico e Eratostenes. A série mostra os problemas científicos e o contexto social em que viviam, bem como os instrumentos utilizados em suas descobertas.

Calendário cósmico – comparação entre 1 ano terrestre e a história da formação do universo desde o big bang até o presente. Permite vislumbrarmos a imensa escala de tempo do cosmos e quão recente é nossa civilização.

Desenho animado sobre a evolução – traços simples em sequência narrada, mostram o contorno das primeiras proteínas e células, passando por séries de animais pré-históricos até chegar ao ser humano.

Simplicidade – o design visual e o roteiro são relativamente simples. As imagens não carregam em efeitos especiais além do necessário, nem a narrativa exagera na quantidade de detalhes. Em algumas passagens Sagan evita explicar equações relacionadas ao tema para discorrer sobre seu significado científico e implicações éticas. Em vários momentos oferece pausas como que para reflexão e contemplação de belas imagens.

Interdisciplinariedade – o roteiro não segue a estrutura formal das disciplinas abordadas, conforme ocorre em livros didáticos. Sagan costuma partir de eventos históricos para derivar suas análises sobre Física, Astronomia, Biologia etc. dentro de uma argumentação que culmina quase sempre em reflexões éticas sobre o papel do homem no universo e a necessidade de superarmos conflitos bélicos (a série foi criada durante o período da guerra fria).

Arte e bom gosto – O roteiro integra elementos de poesia e os efeitos visuais utilizam as belas pinturas de Adolf Schaller na criação de imagens que não podiam ser captadas por telescópios. Por fim, a trilha musical de Vangelis inspira fascínio diante do universo.

O disco de ouro da Voyager Design instrucional para alienígenas e amor eterno – O disco dourado não foi elaborado para a série Cosmos, mas é discutido em um dos episódios. Faz parte das sondas Voyager I e Voyager II, lançadas para fora do sistema solar, e traz a imagem de um homem e uma mulher em posição de saudação, além de diagramas que simbolizam a localização da terra, além de instruções sobre como pode ter suas faixas de áudio ouvidas (como em discos de vinil), que incluem sons da natureza na Terra, música e saudações em diferentes idiomas. Os diagramas procuram seguir uma linguagem científica, supostamente universal, que poderia ser compreendida por outros seres inteligentes. Utiliza, por exemplo, representações do átomo de hidrogênio para definir medidas e a posição de quasares no espaço relativamente próximo à Terra.

Curiosidade: as sondas e o disco foram projetadas para durar 1 bilhão de anos e persistir como sinal de nossa existência mesmo após um eventual fim da humanidade. Dentre as gravações no disco, está o registro EEG – eletroencefalograma, da atividade mental de Ann Druyan, esposa de Sagan e membro da equipe científica que criou as sondas. Esse registro procurou ilustrar o funcionamento da mente humana, e ao final do roteiro oficial de pensamentos sobre a humanidade, Ann concluiu com seus sentimentos de amor por Carl.

 

 

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Régis Tractenberg
Edição e autoria

Régis Tractenberg é diretor e professor da Livre Docência Tecnologia Educacional.

  • Bela análise de um ótimo programa, até porque está bem estruturada, indo além da simples opinião. Acho que este seria um exercício interessante para designers instrucionais, o pessoal que trabalha com edutainment e educadores em geral, fazer esse tipo de análise do material que temos.

  • Obrigado Renato!

    Sem dúvida, principalmente quando analisamos soluções que apreciamos. Vale destacar bons exemplos que sirvam como referências de qualidade.

    Abraços,
    Régis

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