Não compre gato por lebre… (III): cargas horárias superestimadas

Educação a distância, Uncategorized

Atualizado em 04/02/2020


Por Régis Tractenberg
Professor do Curso Teoria e Prática do Design Instrucional

Copio a seguir uma nova resposta no fórum da comunidade Rede Brasil E-learning:—–Olá Vanessa,

Obrigado por me enviar sua pergunta sobre o valor de mercado e reconhecimento de cursos com cargas horárias diferentes.

Estou respondendo nesse fórum pois a questão se refere à credibilidade e valor de certificados de cursos online, tema que vem sendo discutido aqui.

Vanessa, esses cursos que você viu são pós-graduações latu-sensu ou são cursos livres?

Cursos de pós-graduação latu-sensu têm carga horária mínima de 360h, distribuídas entre várias disciplinas e professores. São oferecidos por instituições de ensino superior credenciadas junto ao MEC e conferem diplomas de especialização cujo reconhecimento é garantido por lei em todo território nacional.

As pós graduações em DI da Federal de Juiz de Fora, Senac-SP, e em breve da Puc-SP, são reconhecidas oficialmente.

Os cursos reconhecidos pelo MEC incluem apenas os de ensino fundamental, médio e superior, que se divide por sua vez em graduação, pós-graduação latu-sensu, strictu-sensu mestrado e doutorado.

O Teoria e Prática do Design Instrucional é um curso livre, categoria que não é regulamentada pelo MEC nem por qualquer outro órgão de governo. Procuramos oferecer evidências de valorização pelo mercado através de depoimentos e anúncios de vagas que nos pedem para divulgar entre nossos ex-alunos.

Cursos livres são todos aqueles que não fazem parte do sistema oficial de ensino e incluem, por exemplo, cursos de idiomas, informática, artes, esportes, bem como todos os cursos de qualificação profissional que não sejam de nível médio ou superior. Veja que mesmo os cursos de extensão com carga horária em torno de 120h oferecidos por universidades e escolas técnicas também são cursos livres.

Os cursos reconhecidos pelo MEC emitem diplomas cujo reconhecimento é assegurado pelo MEC em todo território nacional.

Já os cursos livres emitem certificados que tem valor relativo para cada possível empregador. Não há garantias de reconhecimento / aceitação. Cada instituição, curso e professor conta com maior ou menor valorização perante o mercado.

Mas Vanessa, se você viu cursos que não são pós-graduações e indicam carga horária de 300h, cabe examinar algumas questões…

1. Quantas disciplinas são?
2. Quantos são os professores?
3. Quantas semanas duram?
4. Quantas horas de dedicação demandam por dia?
5. Fazem jogos de palavras para sugerir que têm valor oficial, quando são na realidade cursos livres?

Vale perguntar isso pois há cada vez mais cursos livres online que não são oferecidos por instituições / pessoas sérias (algumas até aparentam ser grandes instituições mas são apenas sites bonitos).

Uma das estratégias que utilizam para atrair público para seus cursos é superestimar a carga horária de seus cursos.

Desse modo algumas pessoas acreditam que receberão capacitação de qualidade e certificados valiosos para processos seletivos.

Cursos assim geralmente indicam que os aprendizes precisam dedicar 2h – 3h por dia aos estudos, mas será que os participantes dedicam de fato tudo isso?

Quem tem experiência com EAD sabe, que pedir 2h por dia é algo considerável tendo em vista tantos compromissos que as pessoas têm hoje em dia. Cursos de pós-graduação pedem tal tipo de comprometimento e mesmo assim nem todos os estudantes conseguem se organizar e motivar para tal dedicação.

Em cursos livres, que exigem investimento menor e oferecem certificados menos valorizados, a dedicação dos participantes tende a ser menor também. Acredito por isso que pedir 1h de dedicação por dia é algo mais realista e honesto.

Veja que se cursos de pós graduação com 360h se distribuem ao longo de 1 ano, possuem vários professores e disciplinas; um curso livre que afirme ter 300 horas, tenha poucos professores e seja oferecido em um número bem menor de semanas segue critérios de mensuração (e provavelmente qualidade) diferentes. Mesmo que afirme cobrir grande quantidade de tópicos fará isso de modo superficial, inevitavelmente.

Cursos assim contam com a ingenuidade ou conivência das pessoas que se inscrevem. Algumas não têm experiência para avaliar as características do programa oferecido a partir das perguntas que indiquei acima, e outras só querem mesmo um certificado para utilizar em suas progressões funcionais.

Em muitas instituições é preciso apresentar certificados com no mínimo 120h de estudos para obter aumento de salário. Por esse motivo tantos cursos indicam tal carga horária, ainda que superdimensionada.

(obs.: mais sobre o tema das cargas horárias nesse post)

Em processos seletivos os portadores de tais certificados podem ou não se dar bem. Profissionais de RH experientes podem estranhar cursos com alta carga horária oferecidos em períodos relativamente breves…

É possível encontrar sites de cursos que oferecem certificados de 180h pela leitura de textos, seguida de avaliação com múltipla escolha. Há ainda sites que vendem certificados com cargas horárias variadas para o mesmo curso dependendo de quanto se pague e da redação de poucas páginas a título de ´trabalho de conclusão´. O propósito é claramente a emissão de certificados que sirvam para processos de progressão funcional. Nesse caso há conivência e falta de ética por parte de quem apresenta tais certificados perante possíveis empregadores.

Enfim, não é fácil mesmo avaliar a qualidade de um curso online sem tê-lo feito. O mais indicado é procurar ex-alunos e pedir suas opiniões. Veja que até mesmo depoimentos expostos nesses sites podem ser falsos…

Em qualquer caso, quem se sentir lesado por algum desses cursos pode procurar o Procon de sua localidade e fazer uma reclamação. Cursos são serviços e estão sujeitos à legislação que protege consumidores quanto a propagandas enganosas.

Abraços,
Régis

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Régis Tractenberg
Edição e autoria

Régis Tractenberg é diretor e professor da Livre Docência Tecnologia Educacional.

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  • Prezado Régis,

    Clara a explanação sobre a questão da “efetividade” das horas-aulas anunciadas em cursos livres. É preciso analisar com cuidado. Como quero aprender a trabalhar como independente, não me preocupo com certificados, apesar do valor que eles podem ter.

    Uma observação:: no penúltimo parágrafo do texto não seria conivência em lugar de convivência ?
    um abraço
    Edgard

    • Olá, bom dia Edgard!

      Eu diria que precisamos dar aos certificados o valor que podem ter para nossos alunos, dentro de um uso ético. Se precisam de deles para conseguir empregos ou ter progressões salariais, vale ajudarmos neste sentido emitindo documentos que contenham as informações de que precisam. O que não é correto é superestimar cargas horárias e objetivos, além do que os cursos realmente correspondem…

      Edgard, muito obrigado! Já corrigi o texto 😉

      Abraços,
      Régis

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