Por Régis Tractenberg

 

O cálculo de cargas horárias de cursos é uma questão colocada com frequência por nossos alunos de design instrucional e por muitos profissionais que projetam soluções de aprendizagem.

Essa necessidade decorre de exigências legais em cursos credenciados pelo governo e, consequentemente, da organização interna das instituições de ensino e de seus projetos pedagógicos.

Cursos livres, por sua vez, não são avaliados por órgãos oficiais, mas também precisam definir cargas horárias para adequar suas propostas de ensino e informar a seus alunos quanta dedicação precisam ter para completar os estudos desejados.

Esse tema exige uma série de considerações e convém começarmos pelas situações mais simples que permitem o cálculo preciso de cargas horárias.

Cursos síncronos: some o tempo necessário para cada atividade

Atividades síncronas são aquelas em que professores e aprendizes interagem ao vivo, ao mesmo tempo.

Podem ser presenciais, como aulas, palestras, exercícios em sala, esclarecimento de dúvidas, revisão conjunta de avaliações etc.

E exemplos de atividades síncronas a distância seriam: webinários (uma pessoa fala, muitas assistem ao vivo), videoconferências (algumas pessoas conversam por vídeo), audioconferências e conferências por texto e ao vivo (chats).

Há muitos cursos compostos apenas por atividades síncronas, sendo os mais comuns os cursos, oficinas e disciplinas presenciais que não propõem atividades para casa (que seriam assíncronas, conforme explico a seguir).

Outro tipo frequente de cursos síncronos, nesse caso a distância, são treinamentos em que um especialista explica o uso de um novo software, ou apresenta novas práticas comerciais para profissionais de diferentes localidades por videoconferência.

Nesses casos, dos cursos 100% compostos de atividades síncronas, basta somar o tempo de cada aula, encontro, ou sessão instrucional on-line e temos a carga horária total.

Cursos compostos por materiais didáticos com duração definida: novamente, basta somar a duração de cada um

Nessa categoria temos vídeos e áudios.

Os cursos on-line autoinstrucionais (para estudo individual, sem formação de turmas) feitos apenas com videoaulas têm crescido muito em anos recentes. Plataformas para professores independentes como a Udemy e a Skillshare são exemplos dessa tendência.

Esse tipo de curso informa com precisão sua carga horária total em horas e minutos, e esta resulta da soma dos minutos de duração de cada vídeo.

De modo semelhante, cursos compostos apenas por áudios, embora mais raros, seguem a mesma lógica de cálculo da carga horária.

Nos casos que vamos examinar a seguir, estabelecer cargas horárias torna-se algo mais complexo.

Cursos assíncronos ou que contêm atividades assíncronas: fazemos estimativas e médias

Atividades assíncronas são todas aquelas em que as pessoas interagem ou estudam em seu próprio ritmo. Podem integrar cursos presenciais ou cursos on-line.

Por exemplo: leituras, redação de trabalhos, pesquisas na web, discussão por meio de fóruns, realização de exercícios de aprendizagem etc.

Uma vez que permitem estudos com autonomia, no tempo de cada aprendiz, isso torna impossível afirmar que uma carga horária específica se aplica a todos os alunos.

Considere, de início, o elemento mais simples dentre todos que podem compor um curso: uma página de texto. Enquanto o aluno A leva 2 minutos para ler essa página, o aluno B pode precisar de 4 minutos. Trata-se de uma diferença de 100% que, não raro, ocorre em turmas com o mesmo tipo de público (qualquer turma sempre tem considerável variação no perfil dos aprendizes).

Então, um módulo de estudos feito essencialmente de leituras poderia demandar do aluno B o dobro do tempo que o aluno A necessita dedicar.

Outras atividades de aprendizagem assíncronas podem ter ainda mais variação no tempo que exigem para sua realização, conforme os objetivos de aprendizagem, o perfil e os hábitos de estudo dos aprendizes.

Ou seja, quanto mais assíncronas as atividades de um curso, mais difícil é fazer estimativas, pois maior é a variação do tempo que cada aprendiz precisa.

Vale observar que o apoio de tutores não influencia, de forma definida, a carga horária. A interação com docentes pode tornar o processo de aprendizagem mais rápido por um lado, ou pode estabelecer níveis maiores de profundidade nos estudos, demandando mais tempo.

O mesmo se aplica ao caráter autoinstrucional de um curso. Os aprendizes em alguns casos avançam mais rápido por não terem que esperar pelos colegas ou pelo ritmo de exposição dos professores. Ou podem demorar mais, se as atividades forem difíceis, ou se não tiverem disciplina em seus estudos.

Essas reflexões já estabelecem que qualquer carga horária indicada para um curso com atividades assíncronas é, na melhor das hipóteses, uma estimativa ou média do tempo dedicado pelos participantes.

Vejamos a seguir o caso dos cursos presenciais em universidades.

Cargas horárias de disciplinas presenciais: obras de ficção?

A dificuldade apresentada acima muitas vezes não é cogitada por equipes de produção de cursos e departamentos acadêmicos que atribuem quantidades de horas às suas disciplinas sem o devido cuidado.

Um bom exemplo são as cargas horárias anunciadas em cursos universitários presenciais. A maioria não tem ligação com a realidade.

Tradicionalmente, cursos presenciais contabilizam apenas o tempo em sala de aula e desconsideram a dedicação que os alunos precisam ter fora dela: leituras, reuniões de grupos, pesquisas, redação de trabalhos etc.

Esse tempo de estudos extraclasse pode ser, inclusive, maior que aquele previsto em sala. Uma disciplina anunciada com 60 horas pode exigir, na realidade, 90 ou 120 horas dos alunos…

A decorrência disso é a organização de grades curriculares que sobrecarregam os estudantes, o que leva à redução de seu desempenho e aproveitamento, e compromete outras atividades de trabalho e lazer.

E muitos alunos aderem, ainda, a estratégias de adaptação questionáveis: estudo de véspera, aceitação de notas mínimas em cada disciplina, cola, cópia de trabalhos prontos etc.

Vale observar, ainda, que a sobrecarga de atividades pode contribuir, inclusive, para quadros de ansiedade e depressão entre os estudantes.

Carga horária on-line: a dificuldade de fazer estimativas é maior

Enquanto cursos presenciais têm parte expressiva de atividades síncronas, em muitas disciplinas on-line são as atividades assíncronas que predominam: leituras, discussões em fóruns, pesquisas e redação de trabalhos. E isso leva a expressiva variação no tempo de dedicação de cada aluno.

Então, pelo design instrucional, como estimar a carga horária de cursos com atividades assíncronas?

Temos aqui dois momentos a considerar:

  1. estimativas feitas na etapa de planejamento; e
  2. estimativas feitas após a realização da primeira turma ou de um conjunto de turmas.

Na etapa de planejamento

O desafio criativo nesse momento é encontrar abordagens que promovam os objetivos de aprendizagem previstos para um curso dentro dos limites de tempo, infraestrutura, recursos financeiros etc.

Para definir inicialmente a carga horária de um curso, é preciso considerar todas as orientações geradas nas etapas de análise do design instrucional (que identificam as necessidades de aprendizagem, o perfil do público de aprendizes e os tipos de aprendizagens em vista) e estabelecer as características da solução educacional: o tamanho das turmas, as estratégias didáticas, as tecnologias, as formas de interação e o tipo de sequência dos conteúdos e atividades.

No que se refere ao tempo que um curso pode ter, os limites podem ser mais ou menos importantes, conforme as definições da instituição ou do professor independente que cria o curso.

Se não há limites rígidos quanto à carga horária (geralmente em cursos livres), o planejamento dará prioridade, então, à formulação de todas as atividades adequadas sem grande preocupação com o tempo que demandam.

Mas se, de outro modo (e mais frequente), houver uma carga horária que seja desejável ou obrigatória, torna-se necessário fazer estimativas e ajustes no planejamento de um curso, complementando ou cortando partes, e adaptando estratégias de ensino-aprendizagem até que o formato proposto pareça se enquadrar nos limites esperados.

Limites externos podem ser colocados pela disponibilidade de tempo do público de aprendizes, por leis na área educacional, por normas institucionais, e ainda por diretrizes comerciais.

Um dado curso poderia, então, ser definido como tendo 100 horas, por exemplo, se essa é a carga horária que certo tipo de disciplinas oferecidas por uma instituição precisa ter.

Outro curso pode buscar 10 horas de atividades porque essa é a disponibilidade do público de aprendizes, ou porque a instituição ofertante deseja colocar cursos de rápida realização no mercado.

Cabe considerar, no entanto, que cargas horárias definidas por fatores externos deslocam a prioridade da etapa de planejamento para um requisito que nem sempre está alinhado com as necessidades dos aprendizes.

Precisamos considerar também que não há fórmulas precisas para estimar a carga horária de cursos, pois é vasta a diversidade de formatos e metodologias. E a carga horária dedicada depende do desempenho dos aprendizes nas atividades propostas, algo que sempre varia bastante.

O caminho, então, é pensar cada projeto de modo específico. Para fazer isso, o planejamento em padrões modulares nos ajuda a estimar de modo aproximado e provisório a carga horária de um curso.

Após o mapeamento dos módulos de aprendizagem e seus temas, torna-se possível propor sequências de atividades para cada parte do curso e estimar o tempo que possivelmente demandarão dos aprendizes.

Por exemplo, em um curso on-line assíncrono, teríamos:

Módulo da semana 1 – Carga horária: 5 h
(dedicação de 1 h por dia da semana)

Vídeo 1 (abertura do módulo): 5 min

Texto 1 (15 páginas) – Tempo estimado de leitura (com 2 min por página): 30 min

Vídeo 2: 10 min

Texto 2 (15 páginas) – Tempo estimado de leitura: 30 min

Discussão no fórum – Tempo estimado para reflexão, leitura de mensagens do(a) professor(a) e de colegas, e redação de mensagens: 2 h

Pesquisa e redação de trabalho com aproximadamente 2 páginas – Tempo estimado: 2h

Dentre as atividades acima, a leitura dos textos é aquela que permite estimar a dedicação necessária com alguma objetividade em função da quantidade de páginas e a partir de referências prévias quanto ao tempo de leitura médio do público-alvo.

Quanto às estimativas sobre as outras atividades, essas dependem essencialmente da experiência com o planejamento de cursos e da familiaridade com o público de alunos atendidos.

É sempre recomendável pedir a colegas professores ou designers instrucionais que avaliem se nossas estimativas parecem realistas, ou se exageram para mais ou para menos nos tempos propostos para cada atividade, sempre considerando os tipos de aprendizagens e o perfil dos aprendizes.

Quanto aos vídeos desse exemplo, vale observar que, embora nos ofereçam medidas precisas quanto à sua duração, o tempo somado de 15 minutos pouco influencia a estimativa total da dedicação necessária ao módulo.

No exemplo a seguir temos um curso presencial em que há influência bem maior de atividades com duração definida:

Módulo da semana 1 – Carga horária: 6 h

2ª feira – Aula presencial com exposição do professor e discussões: 2 h

4ª feira – Aula presencial com exercícios e orientação: 2 h

Leituras e pesquisa extraclasse – Tempo estimado de dedicação: 2 h

Nesse exemplo, temos 4 horas de aulas presenciais (síncronas) que podem ser contadas com precisão, e 2 horas de atividades extraclasse (assíncronas), que são estimadas.

Estimativas feitas após a oferta do curso

Fazer estimativas é algo impreciso, mesmo quando temos experiência com certo tipo de atividades de aprendizagem e determinado público.

Para confirmar ou fazer ajustes na carga horária que atribuímos inicialmente a um curso, precisamos avaliar esse aspecto após a realização de uma turma piloto ou de um conjunto de turmas.

Quem fizer tal levantamento encontrará não uma simples média, mas subgrupos de alunos conforme o tempo que estimam ter aplicado às atividades.

Quando perguntados sobre quanto tempo acreditam ter dedicado a um curso, os participantes de uma turma indicam cargas horárias variadas que podem ser organizadas em intervalos.

E esses intervalos mostram maior ou menor dispersão quanto às cargas horárias percebidas pelos alunos.

Um exemplo pessoal

É difícil mesmo acertar de primeira… No planejamento inicial do curso Teoria e Prática do Design Instrucional – TPDI, que criei em 2004, eu desejava que o curso exigisse apenas 35 horas de dedicação dos participantes, mas incluí tal quantidade de atividades e leituras que, ao estimar a carga horária depois da primeira turma, entendi que ele demandava em realidade cerca de 70 horas!

Hoje, com dados mais precisos e após sucessivos ajustes e complementos, sei que a maioria das pessoas dedica em média 50 horas.

Essa média resume, contudo, percepções variadas. Pelos dados da avaliação que realizamos sempre ao final do curso, no item que pergunta sobre o tempo que os alunos dedicaram às atividades, encontram-se os seguintes subgrupos:

21,4% dos participantes acreditam dedicar mais de 60 horas ao curso.
21,4% acreditam dedicar entre 50 horas e 60 horas.
35,7% acreditam dedicar entre 40 horas e 50 horas.
16,1% acreditam dedicar entre 30 horas e 40 horas.
5,4% acreditam dedicar menos de 30 horas.

(Síntese das avaliações das 11 turmas de 2016 do TPDI)

Sem avaliar nosso curso de design instrucional, não seria possível saber isso com precisão…

Podemos observar, então, que um curso assíncrono não leva a uma carga horária única, mas a subgrupos de participantes com diferentes tempos de dedicação estimada (a dedicação real ninguém mede, a não ser em raras pesquisas muito bem controladas).

Como indiquei acima, torna-se possível descobrir que a primeira versão de um curso demanda muito mais ou muito menos tempo (e esforço) do que a carga horária estimada inicialmente. Daí, é preciso fazer modificações na metodologia, acréscimos ou cortes em conteúdos e atividades, para aproximar a dedicação vivenciada pelos alunos à carga horária oficial.

Outra opção, se não houver restrições quanto a isso, é mudar a carga horária oficial anunciada para o curso para que corresponda à média do tempo dedicado pelos participantes.

Então, a rigor, só é possível verificar com alguma precisão a carga horária de um curso após sua implementação junto a determinado público. Antes disso, fazemos apenas estimativas pouco precisas.

A seguir, temos mais duas importantes questões a considerar no que se refere ao tema das cargas horárias…

Cargas horárias superestimadas na EaD

No lado sombrio do mercado dos cursos on-line, é frequente a atribuição proposital de cargas horárias superestimadas.

Trata-se de uma estratégia para atrair alunos interessados principalmente em certificados que somem a quantidade de horas exigidas para sua progressão salarial.

Muitas empresas públicas e privadas consideram certificados de estudos de seus funcionários em sua política de incentivos. Isso é algo ótimo, mas tem sido explorado por instituições de EaD sem ética, com a conivência, ou ingenuidade, dos alunos que se inscrevem.

Por ser difícil verificar previamente a qualidade e a carga horária real de um curso on-line e, na maioria das vezes, as empresas confiam naquela que é anunciada.

É possível encontrar cursos que indicam, por exemplo, 120 horas de estudos para cursos compostos apenas por atividades de leitura e avaliações de múltipla escolha. Alguns desses cursos não indicam com precisão quem são os professores, mostram apenas um quadro geral de tutores que respondem a questões colocadas para quaisquer de seus cursos.

E existem ainda sites que cobram valores diferentes para a inscrição no mesmo curso, conforme a carga horária que virá indicada no certificado…

Não vejo uma solução para isso, pois essa prática deriva do mau uso da liberdade que todos temos para a oferta de cursos on-line. A não regulamentação dos cursos livres é algo excelente, e deve ser valorizado pelos seus benefícios, mas abre espaço para aqueles que exploram brechas lucrativas como essa, e compromete a percepção da sociedade sobre a qualidade da EaD.

Seria importante, contudo, que os setores de RH das empresas observassem esse problema e exigissem evidências válidas de um bom aproveitamento de estudos para fins de progressão de carreira.

(Veja mais sobre o tema neste antigo post.)

Isso nos leva à última questão…

Carga horária importa?

É necessário, sem dúvida, informar aos potenciais participantes de um curso quanto tempo precisam para completá-lo.

Do ponto de vista legal e institucional, carga horária é relevante para fins de credenciamento e avaliação.

Porém, precisamos lembrar que essa não é uma medida de aprendizagem.

Há cursos longos que ensinam pouco e há cursos breves que fazem toda a diferença. A experiência com projetos de design instrucional mostra que atividades que demandam mais tempo não levam necessariamente a resultados melhores…

Ao considerarmos, então, o aproveitamento que podemos ter em um curso, mais importante que a carga horária é o conjunto dos objetivos de aprendizagem apresentados em sua descrição, a consistência das formas de avaliação propostas, e a confirmação proveniente dos depoimentos de quem já participou do curso.

Se os objetivos em vista puderem ser alcançados em pouco tempo, tanto melhor, não é?

Outros tipos de carga horária

O foco deste post foi o cálculo da carga horária de estudos vivenciada pelos alunos. Há contudo, além desta, dois outros tipos de carga horária que interessam a quem projeta cursos presenciais ou on-line: o tempo necessário para o planejamento e desenvolvimento dos materiais didáticos e atividades de um curso, e o tempo que um professor ou tutor precisa para acompanhar os aprendizes ao longo das atividades previstas. Temos assim:

a) a carga horária para quem cria um curso (etapas de planejamento e desenvolvimento do DI).

b) a carga horária de estudos vivenciada pelos alunos (objeto deste artigo).

c) a carga horária dos professores ou tutores que vão acompanhar os aprendizes ao longo do processo de aprendizagem (etapas de implementação e avaliação do DI).

 

O temas dos itens a) e c) também são importantes, mas ficam para futuros posts… 😉

 

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Régis Tractenberg é diretor e professor da Livre Docência Tecnologia Educacional.

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